segunda-feira, 25 de abril de 2016

Róseo, tento lembra da cor do seu rosto quando disse que me amava, róseo acho, meio solar, aquela casa era solar, e a gente não precisava de sol, tinha a cor do seu rosto, o branco do teu olho iluminando tudo, e a gente não precisava de mais claridade; via cinza pela janela e cor no jornal de casa, estendido no chão, enquanto te via pintar a parede, se sujar de mim, adornar nosso entorno e tudo aquilo era suficiente e fazia sentido, mesmo quando inclinava a iluminação do teu rosto na direção do meu olho e eu o apertava, mas não o fechava completamente, porque eu não queria perder um minuto sequer daquela felicidade, apertava o olho e deixava uma fresta, pra que você tivesse em mim de alguma forma, ocupando meu campo de visão, cobrindo a concavidade do meu olho convexo e toda essa merda de ciência que tenta racionalizar todas as cores, vermelho-sangue, azul-marinho, e de que não adiantava tanto estudo, teu olhar castanho-sem-referência era o que me interessava, teu sorriso, teu andar, teu olho torto, só isso importa.

De repente te vi quando cresci. Você me olhava magistralmente, tentando mostrar algo com o olhar, enquanto te encarava meio sem jeito, meio sem querendo acreditar. Sentia teu cheiro misturado com qualquer outra coisa que me lembrava àquela cidade, sentia meu corpo aberto criando maturidades inexistentes, experiências irreais enquanto você não vinha; te esperava inerte atrás de algum motivo que não me fizesse continuar ali com as minhas coisas, minhas esperanças, com meu olho vago insistindo em esperar você voltar, olhando pra porta a cada cinco minutos, quatro, três, a qualquer tempo que conseguisse me segurar e entoasse pra mim mesmo “agora só vou olhar no próximo minuto”, segundo, hora, quilômetro, qualquer medida que me separe desse hiato que nos consumiu o tempo, que nos consumiu no tempo, enquanto ora esperava você abrir a porta, ora não, ora desistia, olhava pra janela como se ainda fosse a porta, via estrada, mato, cerca, via a hora, mas você não entraria mais; passava rua, cidade, mais de ano e ouvia teu sorriso no fundo, confortando meu coração, confrontando o que sentia naquele momento: o barulho da chave inexistente, o gato que perambulava pela sala, indo à porta, me mostrando a saída, lembrando que há entrada, e você entra, embora eu não saiba mais se é você, você entra.
Inconscientemente, sinto teu cheiro em mim. Insisto em pensar que são meus sentidos suplicando por tua presença, por mais racional que possa parecer, da mesma forma que procuro não olhar teu olho assim que te vejo, a fim de evitar um entrega prévia. Caminho lentamente em sua direção e procuro outro foco de atenção de desvirtue à linha tênue que me leva até você. O céu, o chão, as paredes vazias. Os dias intermináveis. As saudades inesgotáveis. E quaisquer outras fontes de luz que embeba essa vontade despercebida de ficar junto. E me aproximo. E te encontro. E beijo teu beijo. E te abraço teu abraço

sábado, 21 de setembro de 2013

Recebo três pingos grossos nas costas, recolho meus livros e me protejo. A melodia fina entorna meia dúzia de versos pelo chão. Me sinto asmático, embora os broncodilatadores sejam eficazes. É um hiato, me disseram um tempo atrás, mas tenho a cada dia mais certeza que não. Com essa não tão bela mania de caetanear os dizeres, me expando praquilo que sempre fui: esbanjo projetos acerca de um futuro sem futuro, absorvendo alguns ideais sem projeção alguma. Vivo o hoje, enquanto me aborda do modo que me convém. Me encanta aos poucos, narcisando minhas palavras aqui, expelindo cds acolá. Invade meu refúgio, incontestavelmente. Invade minhas crônicas fingindo brincar com fogo, se apossando de vocábulos alheios, fingindo ser ora lenha, ora isqueiro. Estranhas saudades, irracionais construções de diálogos futuros. Se transfigura de lua, procura alternativas pras demais retóricas e inventa, como quem quer nada, um equinócio pros demais encontros. Me envolve de afeto e não se põe em qualquer gesto de recusa. Luta, se apossando da coragem emprestada pela vida, inflando com a negação, virando maré. Não se recolha, repouse sobre a esperança, se apegue às expectativas não-racionais. Revigore frustrações e desague em qualquer nascente. Nascendo.

terça-feira, 31 de julho de 2012

"Ao verme que primeiro roeu a fria carne do meu cadáver". - MA






Prezado,



Sutilmente posto todos os livros dos quais não me pertencem na agência dos Correios. Tenho princípios. Recolho tudo que sobrava teu aqui e mando junto. Tenho valores. Tiro mágoas não esclarecidas, reabito alguns milhões de sentimentos maus e posto. Tua dívida nunca foi comigo. Sua presença se tornou descartável, por mais que você tente das formas mais arcaicas e previsíveis chamar atenção. Estou bem, continuo fazendo minhas futilidades e cultivando minha ignorância, obrigado por perguntar. Espero que o teu ‘pseudo-esquizofrenismo’ tenha acabado aqui; e, cordialmente, desejo que expila cada página destes impressos via retal.