terça-feira, 25 de outubro de 2011

Lamento utópico


Sou a síntese de tudo o que não gostaria de ser. Talvez, um dos meus maiores erros foi esse: não traçar metas concretas, não crias espectativas realistas, entrar no conto de fadas que fui convidado. Meu erro foi me entregar, afinar, entortar, encurvar. Se eu não traísse meus princípios não estaria desesperado, frustrado. Preciso viver de novo, dividir futilidades. Exergar a realidade não é o bastante para te tirar da minha cabeça. Saber dos fatos não abastece minha fúria. Estou calmo demais para quem sofre. Tenho que gritar, sair de mim. Meu corpo merecia ser oco. Sei que você não se importa mais comigo e nem quer mais ouvir minha voz. Sua independência sempre me matou. Estou morrendo por dia: todo aquele amor crescido diariamente está decrescendo a cada vez que tomo uma bolinha de chumbinho. Uma vez ou outra ainda como umas gramas de vidro ralado para curar a saudade que me cega; essa maldita saudade que só existe em português, que extermina meu ego, que me mostra o chão. O desperdício da vida está no amor que damos e sentimos, que me desculpe Chaplin. Quando amamos vivemos num mundo paralelo, longe da realidade. Quero para sempre o mesmo chão que piso agora, só que sem dor - mesmo sabendo que é utopia. Fui bom demais para sofrer. Sou bom demais pra sofrer. A dor é injusta. O amor é injusto. A vida é injusta. Lamentar sempre será o meu ofício.

Guilherme Quintanilha

sábado, 3 de setembro de 2011

Recolho meus encantos e inibo desventuras como quem brinca com fogo. O dia amarelo-azulado me lembra que te mostrei minha lágrima hoje. Só você a vê. Juro, jurei por muito tempo que só eu a veria, e agora nem eu mesmo mais as vejo. Vivo de utopias simples, sinceras. Teus sinais não me confundem, teus cabelos não serviram de camuflagem. Enxergo hemácias enormes, teu signo se perdeu com tua maturidade. Sou seguro de mim; seguro, tão seguro, que ninguém me vê assim. Me asseguro no teu afeto noturno. Te perco todas as manhãs e batalho o dia todo pra te ter a noite. Teus olhos embebidos de sabedoria me repreendem ocasionalmente pelo excesso. Me perco com tua pele, com os sentimentos, com minha semântica, e por isso pareço complexo. Eu, e quando digo eu, devia dizer nós – eu mesmo, minha língua, meus textos –, sou simples quando visto de fora; o problema é que me perco e não consigo deixar que você fique longe de mim. Me conhece bem por dentro e sabe tudo que eu sinto. Desregulo involuntariamente minhas glândulas lacrimais e tudo aquilo que sai me mim se refere a você: minha vida, meu amor, minha mulher.

Guilherme Quintanilha

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Petrifico qualquer sentimento. Respiro o ar do refrigerador, coagulo esperanças frustradas, desritimizo batimentos cardíacos. Crucifico meus afetos e termino sozinho. Ressuscito uma boa relação entre as pessoas enquanto minha mente catequética retorna e entorna meus vocábulos: vieste do pó e ao pó voltarás. As religiões são uma tentativa de amenizar a dor dos humanos e humanizar a desvinculação dos fenômenos terrestres. Minha consciência pesa nos ombros, dói os olhos, enquanto minha aura insistem em lembrar que eu preciso de você.

Guilherme Quintanilha


quarta-feira, 22 de junho de 2011


Eu te amo mesmo com suas crises, sandices, crendices;
Com suas evoluções psico-sociais, sua maturidade inexistente, suas teorias banais.
Com seu amor inabalável, sua segurança inflamável, sua paixão instável, insegurança questionável;

Amo com suas impulsões à flor da pele, com sua integridade reles, como seu consumismo pede;
Com sua sede sádica, sua fome híbrida, seus gestos castos, seu rosto intacto -
Mesmo com sua vida lídima, profana e satírica;

Com seu toque insociável, sua personalidade inviável, sua mente inexorável.
Com seu desejo supremo, seu olhar ameno, seus lábios intensos.
Com suas vontades desapiedadas, suas metáforas vagas, ironias afagadas.

É como saciar a fome sem ter nada pra digerir.

domingo, 19 de junho de 2011


Não que eu seja duro, as palavras que são frias. Minha língua é enrijecida por qualquer desvirtude.  Tenho que aceitar humanamente que os nossos caminhos sempre trilham prum mesmo fim, e qualquer devaneio interno é esmigalhados pelas minhas lembranças. Meu ódio é alimentado pelo que eu tinha sonhado pra nós, intimadamente. Inspiro a poeira do piso num só gesto – meus olhos vermelhos já não são por tua causa, as lágrimas brotarão sem que eu pense em você. Absorvo todos ideais de superação: penteio os cabelos, escovo os dentes, dou um laço no cadarço com só uma mão. Minha vida sempre esteve certa, a distância me torna cada vez mais frígido, meus pensamentos constroem diálogos inexistentes, enquanto tudo conspira e espera você voltar.

Guilherme Quintanilha